O Parto

O parto: guia completo do trabalho de parto e do nascimento

O parto é uma experiência profundamente pessoal e, ao mesmo tempo, um processo fisiológico com uma lógica precisa. Preparar-se não significa controlar tudo: significa reconhecer os sinais do corpo, conhecer as opções disponíveis e saber quando pedir ajuda. Se está procurando a lista do que levar ao hospital, consulte a bolsa maternidade. Para os últimos dias antes do parto, leia os guias da semana 38, semana 39 e semana 40 de gravidez.

Os sinais do início do trabalho de parto

O trabalho de parto pode começar de várias formas. As mais frequentes são:

  • Contrações regulares e progressivas: que ficam mais frequentes, mais longas e mais intensas com o tempo, e não cedem ao mudar de posição nem com a hidratação. A regra 5-1-1 (contrações a cada 5 minutos, duração de 1 minuto, por pelo menos 1 hora) é uma referência prática para primígestas — pergunte à sua ginecologista qual é a orientação específica para o seu caso.
  • Rotura da bolsa: saída de líquido amniótico, que pode ser um jorro abundante ou um gotejamento contínuo. Ligue para a sua ginecologista ou vá à maternidade imediatamente, mesmo sem contrações.
  • Bloody show (saída do tampão mucoso com sangue): perda de muco rosado ou com estrias de sangue. Por si só não indica que o parto é iminente, mas avise a sua ginecologista.

As fases do trabalho de parto

O trabalho de parto é descrito habitualmente em três estágios:

Primeiro estágio: dilatação

O primeiro estágio começa com as primeiras contrações regulares e termina com a dilatação completa do colo do útero (10 cm). Divide-se em duas fases:

Fase latente (0 a 5-6 cm): as contrações são irregulares ou moderadamente regulares, de intensidade variável. O colo do útero se apaga (afina) e dilata lentamente. Em primígestas, esta fase pode durar várias horas ou até um a dois dias. Em geral, não é necessário ir à maternidade durante a fase latente — muitas ginecologistas aconseiam ficar em casa com atividade leve, hidratação e descanso, e ir quando as contrações cumprirem os critérios combinados.

Fase ativa (5-6 cm a 10 cm): as contrações são regulares, frequentes (a cada 2 a 5 minutos), duram 60 segundos ou mais e são intensas. A dilatação progride a um ritmo mais rápido. É o momento de ir à maternidade. A equipe avaliará a dilatação, o apagamento, o encaixamento do bebê, a frequência cardíaca fetal e o estado das membranas. A anestesia peridural, quando disponível, é habitualmente administrada durante a fase ativa.

Segundo estágio: expulsivo

O segundo estágio começa com a dilatação completa (10 cm) e termina com o nascimento do bebê. A sensação de pressão intensa no períneo e a vontade de empurrar são sinais de que o bebê está descendo pelo canal do parto. A equipe guiará o puxo, as posições e a respiração. A duração varia: em primígestas pode durar de 30 minutos a duas horas com peridural; em multíparas costuma ser mais rápida.

Durante o expulsivo, a equipe protegerá o períneo para reduzir o risco de lacerações. A episiotomia só deve ser realizada quando existe uma indicação clínica específica — como sofrimento fetal que exija o nascimento imediato — e não de forma rotineira.

Terceiro estágio: dequitação

Após o nascimento do bebê, a placenta se desprende da parede do útero e é expelida. Com o manejo ativo da dequitação — administração de ocitocina e tração controlada do cordão —, esta fase costuma completar-se em 5 a 15 minutos. A equipe verificará que a placenta está íntegra e avaliará o sangramento e a contração do útero.

Se o estado de ambos o permitir, o recém-nascido é colocado em contato pele a pele no peito da mãe imediatamente após o nascimento. O cordão é cortado com clampeamento tardio quando possível. Realizam-se a avaliação do APGAR, a vitamina K intramuscular, o colírio profilático e as medições do bebê.

A dor do parto e as opções de alívio

A dor do trabalho de parto é real, variável e individual: a sua intensidade, localização e tolerabilidade diferem muito de uma pessoa para outra e de um parto para outro. Não existe a decisão "correta" quanto ao manejo da dor — o importante é que seja informada e respeitada.

Anestesia peridural (epidural): a opção farmacológica mais eficaz disponível. Um anestesiologista coloca um cateter no espaço peridural da coluna lombar e administra anestésico local de forma contínua. Proporciona alívio muito significativo da dor pélvica e perineal. A evidência atual mostra que não prolonga o trabalho de parto nem aumenta a taxa de cesárea. Pode ser solicitada em qualquer momento do trabalho de parto ativo. Contexto Brasil: disponível de forma rotineira na maioria dos hospitais privados; nas maternidades do SUS, a disponibilidade varia conforme a instituição e o horário de cobertura do anestesiologista. Pergunte à sua maternidade com antecedência.

Analgesia sistêmica: opioides (tramadol, meperidina) por via intravenosa ou intramuscular. São menos eficazes do que a peridural; atravessam a placenta e podem afetar temporariamente a respiração do recém-nascido, por isso não são administrados próximo ao parto.

Métodos não farmacológicos: banho de imersão ou chuveiro quente, movimentação ativa e mudança de posição, massagem lombar, bola de pilates, TENS (estimulação elétrica nervosa transcutânea), respiração guiada (psicoprofilaxia obstétrica), aromaterapia e acompanhamento contínuo. São complementos úteis, especialmente na fase latente e no início da fase ativa.

A equipe de parto

Dependendo da instituição e do tipo de parto, a sua equipe pode incluir:

  • Médico(a) obstetra (ginecologista-obstetra): especialista que supervisiona o trabalho de parto e realiza o parto vaginal ou a cesárea. Na maioria das maternidades brasileiras, o obstetra dirige o parto.
  • Enfermeiro(a) obstetra: profissional de enfermagem com especialização em obstetrícia. No Brasil, o enfermeiro obstetra é habilitado pelo Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) para assistir partos normais de baixo risco de forma autônoma. Muitas maternidades do SUS contam com enfermeiros obstetras como parte central da equipe de parto.
  • Anestesiologista: responsável pela peridural, pela raquianestesia e pela anestesia geral em caso de necessidade cirúrgica urgente.
  • Neonatologista ou pediatra: presente no parto em casos de risco fetal ou prematuridade; realiza a avaliação do recém-nascido e as manobras de reanimação se necessário.
  • Doula: acompanhante de parto não médica com formação em apoio emocional, físico e informativo durante o trabalho de parto. No Brasil, a doula pode acompanhar a parturiente nas maternidades do SUS ao abrigo da Lei do Acompanhante (Lei 11.108/2005). A evidência científica mostra que o apoio contínuo por doula reduz a taxa de cesárea, a duração do trabalho de parto e o uso de analgesia.

O parto por cesárea

A cesárea é uma cirurgia abdominal que permite o nascimento do bebê por incisão no abdômen e no útero. Pode ser programada (planejada com antecedência por indicações médicas: apresentação pélvica, placenta prévia, cesárea anterior com cicatriz inadequada, entre outras) ou de urgência (não planejada, diante de uma situação que exige o nascimento imediato).

A anestesia habitual para a cesárea é a raquianestesia (anestesia espinal), que mantém a mãe acordada e consciente. O acompanhante pode estar presente em muitos serviços. O bebê nasce em poucos minutos após o início da cirurgia; a sutura do útero e do abdômen leva entre 30 e 45 minutos adicionais. Se o estado de ambos o permitir, o contato pele a pele pode ser iniciado na própria sala cirúrgica.

A recuperação de uma cesárea leva mais tempo do que a de um parto vaginal: a alta hospitalar costuma ser em 3 a 4 dias e a recuperação completa pode levar 4 a 6 semanas. A mobilização precoce reduz o risco de trombose.

Contexto Brasil: o Brasil tem uma das taxas de cesárea mais elevadas do mundo — aproximadamente 55 a 60% de todos os partos, com proporções ainda mais altas no setor privado (próximas de 85 a 90%). A OMS recomenda que as taxas de cesárea não ultrapassem 10 a 15% da população. Se a cesárea não for clinicamente indicada no seu caso, você tem o direito de ser informada sobre os riscos e benefícios e de decidir com base em informação completa.

Sinais de alarme durante o trabalho de parto

Entre em contato com a maternidade ou chame o SAMU (192) imediatamente se durante o trabalho de parto ou o pós-parto imediato observar:

  • sangramento vaginal abundante (vermelho vivo, maior do que uma menstruação intensa);
  • líquido amniótico verde, marrom ou com mau cheiro (pode indicar mecônio ou infecção);
  • redução brusca ou cessação dos movimentos fetais;
  • febre igual ou superior a 38 °C;
  • dor abdominal intensa e constante (diferente das contrações intermitentes);
  • dor de cabeça intensa, alterações visuais, inchaço súbito no rosto e nas mãos (sinais de pré-eclâmpsia);
  • sensação de que algo está errado ou de que o seu estado geral está piorando.

Conceitos importantes

Enfermeiro(a) obstetra – profissional de enfermagem com especialização em obstetrícia, habilitado pelo COFEN para assistir partos normais de baixo risco de forma autônoma. No Brasil, os enfermeiros obstetras são parte fundamental da equipe nas maternidades do SUS e nos centros de parto normal. Diferem das "parteiras tradicionais", que são agentes comunitárias sem formação universitária — ainda presentes em áreas remotas com acesso limitado a serviços de saúde.

Cardiotocografia (CTG) / monitorização fetal – registro simultâneo da frequência cardíaca fetal e das contrações uterinas por meio de sensores externos colocados no abdômen. Avalia o bem-estar do bebê durante o trabalho de parto. Pode ser intermitente (com Doppler de mão ou CTG periódico) ou contínua (eletrônica, durante todo o trabalho de parto). O monitoramento contínuo está indicado em partos de alto risco, partos induzidos e quando há sinais de sofrimento fetal.

Dequitação (terceiro estágio do parto) – o período que vai do nascimento do bebê até a expulsão completa da placenta e das membranas. Com o manejo ativo da dequitação (ocitocina intravenosa + tração controlada do cordão), costuma completar-se em 5 a 15 minutos. A equipe verifica que a placenta está íntegra e monitoriza o sangramento e a contração do útero.

Clampeamento tardio do cordão umbilical – aguardar pelo menos um a três minutos — ou até o cordão parar de pulsar — antes de cortá-lo. Permite a transferência de sangue placentário rico em ferro e células-tronco para o recém-nascido. Reduz o risco de anemia nos primeiros meses de vida. É recomendado pela OMS e pelo Ministério da Saúde como prática padrão, salvo situações que exijam intervenção neonatal imediata.

Psicoprofilaxia obstétrica – preparação psicológica, física e informativa para o parto que utiliza técnicas de respiração, relaxamento e visualização para ajudar a gerir a dor e a ansiedade durante o trabalho de parto. É oferecida gratuitamente em muitas maternidades do SUS como parte dos cursos de gestantes. A evidência mostra benefícios na percepção da dor, na satisfação com a experiência do parto e na redução do uso de analgesia farmacológica.

Perguntas frequentes sobre o parto

Quando devo ir ao hospital quando começam as contrações?

O guia prático mais usado para primíparas é a regra 5-1-1: contrações a cada 5 minutos, com duração mínima de 1 minuto, por pelo menos 1 hora. Em multíparas (cujo trabalho de parto costuma progredir mais rápido) ou se o hospital estiver longe, sua obstetra pode indicar ir antes. Se as membranas romperem (perda de líquido amniótico), ligue imediatamente mesmo sem contrações.

Posso comer durante o trabalho de parto?

Depende do protocolo da sua instituição. Em muitos hospitais e maternidades brasileiras permite-se uma dieta leve durante a fase latente do trabalho de parto. Em outros centros restringe-se a ingestão oral por protocolo de anestesia. Pergunte à sua obstetra qual é a política da sua maternidade.

Quanto tempo dura o trabalho de parto?

A duração varia muito de uma pessoa para outra. Em primíparas, o trabalho de parto ativo (dos 5-6 cm de dilatação até o nascimento) dura em média 6 a 12 horas. Em multíparas costuma ser mais rápido: 4 a 8 horas ou menos.

O que acontece logo após o nascimento do bebê?

Nos primeiros minutos após o nascimento, se o estado de ambos permitir: o bebê é colocado pele a pele no seu peito, o cordão umbilical é cortado com clampeamento tardio, avalia-se o APGAR no 1º e 5º minuto, e é feita a dequitação (expulsão da placenta). Nas primeiras horas administra-se vitamina K intramuscular e colírios antibióticos ao bebê.

Posso ter um acompanhante durante o parto no Brasil?

Sim. No Brasil, a Lei Federal nº 11.108/2005 garante o direito ao acompanhante durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato nos serviços do SUS. Em hospitais privados esse direito também é amplamente garantido. Você pode escolher sua parceira, familiar, amiga ou doula.

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